Papel social do entretenimento: The Handmaid's Tale é a personificação do que não podemos nos tornar


O debate político e social contemporâneo é marcado por questões que já deveriam ter sido resolvidas. Em pleno 2017, ainda precisamos lutar (e muito) para mostrar que mulheres e homens são iguais, que a diversidade de raças e etnias devem ser celebradas, que o amor deve ser livre, que a arte não deve ser censurada, que a desigualdade social é a principal culpada das nossas mazelas, e por aí vai. 

Na luta por direitos iguais, a mídia democrática tem um papel FUNDAMENTAL: o da representatividade. Seja dos diferentes setores da sociedade, seja da nossa história, ou até mesmo de um futuro que nós NÃO queremos. Com isso, vamos falar um pouco sobre a maior surpresa do mundo das séries este ano. The Handmaid's Tale.



A produção é uma adaptação original da plataforma de streaming Hulu, criada nos Estados Unidos e ainda não disponível no Brasil. O livro que deu origem ao roteiro da série foi lançado em 1985, escrito por Margaret Atwood e publicado aqui como “O Conto da Aia”. Confira o trailer:



A premissa é assustadora. Trata-se de uma distopia, em que os Estados Unidos deixou de se chamar Estados Unidos e se tornou a República de Gilead, governada por um regime totalitário e definido pela religião. Nesse sistema, as mulheres são propriedade do Estado, sem nenhum tipo de direito. A divisão se dá por castas: mulheres férteis (raras nessa realidade distópica, após uma doença que dizimou parte da população mundial) pertencem ao grupo das aias e são escravas sexuais, tendo a função de procriar para famílias da elite. Na série, o estupro dessas mulheres pelos chefes das famílias ganha o nome de "cerimônia", e é um ritual religioso. Estão pasmos? Não para por aí. 



O roteiro é contato sob a perspectiva de Offred, protagonista interpretada por Elisabeth Moss (que merece todos os prêmios por essa atuação). O nome da personagem também tem um contexto: Offred significa "Of Fred", ou seja, De Fred. Fred (Joseph Fiennes) é o chefe da família a qual ela é escrava. Offred, que antes se chamava June, tinha marido e filha. Ele foi morto e a filha foi tomada pelo governo. Com cenas que se alternam entre o presente e o passado, The Handmaid’s Tale mostra pouco a pouco como a sociedade norte-americana se transformou nessa teocracia. 

Confira algumas críticas importantes a respeito:

  • The New York Times - James Poniewozik
“‘The Handmaid’s Tale’ é um alerta, uma história de resistência e sua construção de universo é impecável. É rigorosa, vital e muito assustadora. (…) Eu odeio dizer que essa trama é relevante atualmente, como se não fosse assim há três décadas. Mas vamos encarar: quando se tem um presidente que fala sobre mulheres como se elas fossem brinquedos, que deu a entender que uma jornalista durona estava menstruada, cujo governo juntou uma sala cheia de políticos homens para discutir a saúde das mulheres – bem, o marketing viral acontece por conta própria. Você pode não acreditar que alguém na vida real esteja tentando fazer como que os Estados Unidos se transformem em Gilead. Mas ‘The Handmaid’s Tale’ não é sobre uma profecia. É sobre um processo, sobre a maneira com que as pessoas se forçam a acreditar que o anormal é normal, até que um dia elas olhem ao redor e percebam que esses são os antigos dias ruins.”

  • BuzzFeed News - Anne Helen Petersen
“O olhar masculino é um sintoma de uma forma de arte cujas normas foram desenvolvidas pelos homens, numa indústria dominada pelos homens, para o público ditado em grande parte pelas preferências masculinas. Ele reflete Hollywood, mas também reflete a maneira como olhamos para as mulheres no mundo. O que é parte do porquê de ter sido tão difícil de reverter essa situação: o patriarcado se recusa a mudar. O que é desenvolvido, então – na maior parte, mas não somente, por meio do trabalho de cineastas mulheres -, é uma espécie de híbrido negociado, uma forma de ocupar a perspectiva de uma mulher enquanto ela navega no mundo patriarcal ao seu redor. Chame isso de olhar feminino. Ao contrário do olhar fixo e obsessivo, a visão é dispersa, ágil. Esse olhar vasculha, gira – ou, alternadamente, observa, com paciência, os momentos do mundo de uma mulher que muitas vezes passam despercebidos. Pense na cena pastoral em ‘Maria Antonieta’ ou na montagem de Leonard Cohen em ‘Take This Waltz’, o agitar das cortinas em ‘Brilho de uma Paixão’, o céu alucinado e o vídeo caseiro de “All Night”, o slow-motion e a raiva de “Hold Up”, ambos de Beyoncé, as inserções de flashback de abuso em ‘Big Little Lies’.” 


Em entrevista especial para essa postagem, a viciada em séries, estudante de ciências sociais e simpatizante do movimento feminista Beatriz Fernandes deu um parecer sobre a questão social da trama. "The Handmaid's Tale representa aquilo que há de mais nojento no patriarcado. Por muitas e muitas cenas, é difícil manter o olho na tela. As sequências causam angústia e revolta. E por mais absurdo que isso possa soar, tem muita gente que gostaria de viver em uma realidade como aquela, em que as mulheres não tem liberdade de ação ou pensamento, e seus corpos são meras propriedades para uso dos homens. Porém, muito mais do que demonstrarmos nossa crítica social baseada em um produto audiovisual, precisamos enfrentar de frente a misoginia, o preconceito e a desigualdade. Aqui no Brasil, nos EUA e em todos os lugares do mundo".

O fato é que a série chegou em um momento político conturbado, em que Estado e religião se confundem e o conservadorismo cresce assustadoramente. Dado isso, The Handmaid's Tale fez história ao ser a primeira produção de streaming a ser premiada com o título de Melhor Drama, principal categoria do Emmy. Na edição de número 69, o maior prêmio da televisão mundial mostrou como a representatividade e a diversidade estão ditando o mercado audiovisual, ao ter The Handmaids Tale e Big Little Lies (outro drama que retrata o universo feminino e a sororidade, produzido pela HBO e tema de uma futura postagem daqui do blog) como as maiores premiadas. 

Em artigo escrito para o The New York Times, a própria autora deu a sua opinião sobre o significado da série na era Trump.

“Primeiro: o livro é ‘feminista’? Se você quer dizer um panfleto ideológico no qual todas as mulheres são anjos e/ou tão vitimizadas que são incapaz de escolhas morais, não. Se você quer dizer um livro no qual mulheres são seres humanos – com todas as variações de caráter e comportamento que isso implica – e também são interessantes e importantes, e o que acontece com elas é crucial para o tema, estrutura e trama do livro, então. Nesse sentido, muitos livros são ‘feministas’. (…) A segunda pergunta é: ‘The Handmaid’s Tale’ é contra a religião? Novamente, depende do que você acha. É verdade, um grupo de homens autoritários tomam o controle e tentam retomar uma versão extrema do patriarcado, na qual mulheres (como escravos americanos do século 19) são proibidas de ler. Mais para a frente, elas não podem mais ter dinheiro ou ter empregos fora de casa, ao contrário de algumas mulheres na Bíblia. No livro, a ‘religião’ dominante quer obter controle doutrinário, e denominações religiosas familiares a nós estão sendo aniquiladas. Então o livro não é anti-religião. É contra o uso da religião como justificativa para a tirania; o que é algo totalmente diferente. A terceira pergunta é: o livro é uma previsão? Não, porque prever o futuro não é possível: há muitas variáveis e possibilidades impossíveis de descobrir. Vamos dizer que seja uma antiprevisão: se esse futuro pode ser descrito com detalhes, talvez ele não vá acontecer. Por causa da recente eleição americana, medo e ansiedade se espalham. Liberdades civis básicas são vistas como ameaçadas, assim como muitos direitos conquistados pelas mulheres nas últimas décadas e nos últimos séculos. Nesse clima divisivo, no qual ódio por vários grupos parece aumentar e o desprezo por instituições democráticas está sendo expressado por extremistas de todos os tipos, é certeza de que alguém, em algum lugar está escrevendo o que está acontecendo enquanto essa mesma pessoa vivencia tudo isso. Ou as pessoas vão se lembrar e gravar depois, se puderem. Essas mensagens serão oprimidas e escondidas? Elas serão encontradas, séculos depois, numa casa antiga atrás de uma parede. Vamos torcer para que isso não aconteca. Eu acho que não vai.”

The Handmaid's Tale é um pesadelo distópico que assusta ao se aproximar da realidade. A ameaça teocrática e a relativização dos direitos humanos cresce em todo o mundo, e o que mais me preocupa é o fato de as pessoas não estarem se manifestando em relação a isso. É preciso que lutemos pela liberdade e pela democracia, para que a realidade aterrorizante (ou qualquer coisa que se aproxime a isso) de The Handmaid's Tale fique exclusivamente na ficção. 

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